Quando os militares invadiram e fecharam o Congresso Nacional, em 1966, no primeiro dos golpes dentro do golpe de 1964, Armindo Marcílio Doutel de Andrade (1920-1991) comandava a resistência. Detentor de uma oratória luminosa, reforçada por uma sólida cultura clássica, esse antigo jornalista de debates parlamentares era o líder do PTB legado por Getúlio Vargas.
Esse partido ainda sobrevivia, a duras penas, à borrasca autoritária deslanchada pela deposição do Presidente constitucional João Goulart, de quem tinha sido o último líder na Câmara.
Doutel resistiu heroicamente, em meio ao cerco policial do imponente edifício do Parlamento, o mais alto de Brasília, como forma de elevar a soberania da representação popular sobre os outros poderes. Àquela altura, a luz e a água tinham sido cortadas e o mau cheiro já exalava forte. Mas ele se recusava a deixar que “as botas dos militares sediciosos conspurcassem a intangibilidade e a soberania” do Legislativo. Depois vieram os tanques, a invasão por tropas, as prisões e mais cassações de mandato. Doutel encabeçava todas as listas.
Era especialmente visado, não só por sua amizade com João Goulart, mas por aferrar-se aos princípios do trabalhismo e defender, até o último momento, as reformas de base do presidente destituído. Em um de seus discursos, que se tornaram peças memoráveis nos anais, Doutel de Andrade apontava os objetivos dessas reformas: “Elas alcançavam o Brasil nas suas estruturas. Pretendiam fazer uma nação moderna, ágil; levar aos extremos e à sua perfeita e total consumação o processo iniciado por Getúlio para transformar o Brasil em uma grande potência, retirando-a da condição melancólica de exportador de café”.
Com Doutel também foi cassado o PTB, com base no Ato Institucional nº 2, que extinguiu todos os partidos então existentes. O PTB, a segunda maior bancada da Câmara, tinha 113 deputados e tudo indicava que se tornaria o partido mais forte na eleição que se avizinhava. Em substituição às legendas tradicionais, o regime implantou a Arena, partido da ditadura,“majoritário”, detendo 2\3 do Congresso, e o MDB, para fazer a chamada oposição consentida. Impedido de exercer qualquer atividade política por dez anos, Doutel foi para casa, mas mandou em seu lugar a esposa Lígia Doutel de Andrade, eleita pelo MDB (não havia outra alternativa) deputada federal, no pleito seguinte de 1968.
Apesar de carioca da Vila Isabel, antigo jogador júnior do Flamengo e tendo militado na grande mídia do Rio, Doutel representava Santa Catarina, para onde se mudou depois de fisgado pelo coração da barriga-verde Lígia Moelmamm, filha do prefeito de Florianópolis, quando esta visitava em férias a Cidade Maravilhosa.
Com a anistia de 1979, Doutel de Andrade se incorporou à corrente petebista liderada por Leonel Brizola, que tentou refundar o PTB, propósito frustrado pela ditadura ainda vigente, que conferiu esse direito a um grupo minúsculo, porém da confiança dos generais. Quando o PDT foi fundado por Brizola, em 1980, Doutel foi eleito 1º vice-presidente e depois assumiu a presidência nacional nos quatro anos do governo brizolista do Rio de Janeiro (1983-1987).
Retornando à Câmara, em 1987, Doutel engajou-se na mobilização para fazer Brizola candidato à presidência da República, em 1989. Foi líder da bancada e despediu-se da Câmara, em 1991, quando, embora já corroído por uma doença grave que o abateria naquele mesmo ano, Doutel de Andrade pontificou na tribuna, com discursos que marcaram época. Dentre eles, está um balanço dos 25 anos do golpe de 64, quando afirmou: “O trabalhismo pode ser apontado como a raiz do golpe de Estado de 1964. É sabido que as suas fontes originais estão nos acontecimentos de 1930. É então, nesses acontecimentos, que devemos buscar as razões que, afinal, vieram a desabrochar, desembocar no golpe que levou ao exílio e finalmente à morte o Presidente João Goulart”.
No Livro 50 dos Perfis Parlamentares, “Doutel de Andrade”, publicação da Câmara de 2006, o autor, jornalista Luiz Augusto Gollo, diz de seu biografado: “Carioca de Vila Isabel e contemporâneo das personagens que faziam do bairro da música e da boemia o centro cultural do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século, Doutel de Andrade trilhou, até alcançar a política, um caminho tão eclético quanto surpreendente. Rapaz “peladeiro” dos campos de Andaraí, chegou a titular da camisa 10 do time juvenil do Flamengo que ganhou o campeonato carioca de 1938. Chamado às falas pelo pai, como todo mundo à época, julgava o futebol coisa de vagabundo, Doutel acabou por diplomar-se advogado. Mas somente quando abraçou a política e o trabalhismo encontrou sua real razão de viver”.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Assinar:
Postar comentários (Atom)


0 comentários:
Postar um comentário